Ao longo de mais de quinze anos dedicados à psicografia de livros espíritas, amadureceu em mim um antigo desejo: escrever sobre os pretos-velhos. Sempre senti que esse arquétipo de sabedoria, humildade e resiliência, além do respeito que naturalmente inspiram, merecem também um espaço mais amplo na literatura espírita, onde sua sabedoria, humildade e caridade possam ser mais bem compreendidas. Movido por esse propósito, entrei em prece. Solicitei, com sincera reverência, ao arquétipo que se utiliza de minha mediunidade.
Pai Cipriano de Angola. Esse é o seu nome.
Naquele dia, porém, não houve resposta. Alguns dias depois, senti sua doce presença muito próxima a mim. Uma pergunta silenciosa brotou em meu íntimo: — será que ele me permitiria escrever algo ao seu lado?
Ele chegou como sempre. Se aproximou lentamente e se sentou em um banquinho plasmado por ele para nosso encontro. Logo o abordei: — Oi, vovô — disse, emocionado.
— Oi, musifio. Sunce tá bom, fio?
— Estou bem, vovô. E o senhor?
— O veio tá indo, fio.
— Sabe, vovô, estou muito feliz que o senhor ouviu minha prece.
— O veio também, fio. O que sunce quer do velho, fio?
— Ah, vovô… eu sempre sonhei em escrever algo sobre os pretos-velhos. Como o senhor sabe, já tenho muitos livros escritos, mas nada sobre vocês. E isso me entristece. Eu gostaria muito de escrever sobre as Santas Almas Benditas. Quem são vocês? Onde vivem? O que fazem quando não estão nos terreiros praticando a caridade? Enfim, todo o universo que envolve essa linda falange de obreiros da caridade, com tanta sabedoria e amor.
— O veio pode te ajudar, meu filho.
— Sério, vovô?
— Sério, filho. O velho vai usar uma linguagem sem a roupagem do arquétipo, pode ser?
— Claro vovô.
Ele então prosseguiu: — Não se condene por tarefa não realizada. Tudo acontece em conformidade com a necessidade humana. Se antes você não nos procurou, era porque não estava no momento exato. Há tempo para cada compreensão e maturidade para cada missão.
"Agora, meu filho, assuma o seu papel. Se este encontro foi permitido, é porque o momento chegou. Vamos registrar o nosso trabalho como arquétipos da Umbanda, trazendo esclarecimento, orientação e servindo a todos por meio da palavra." Olhei para ele com os olhos marejados. Não era apenas o início de um livro. Era o início de um ajuste interior.
Agradeci em silêncio e em voz. E assim começamos esta obra. Sejam bem-vindos à Diálogo com pai Cipriano de Angola. Osmar Barbosa
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